“Tá combinado. Amanhã. Nós dois. No mesmo horário.
Só quero te ver de novo, ver se você já sabe passar suas calças sem meu auxilio, ver se as golas de suas camisas estão engomadas, se teus sapatos estão ilustrados, se tua barba está feita. Quero ver se houve alguma mudança após o nosso fim, ou se ficou do mesmo jeito que eu o deixei. Eu confesso, tenho medo de encontrar você de outro modo, com outras maneiras. Tenho medo de você ter perdido qualquer resquício que faça você lembrar-se de mim de alguma forma. Quero lhe informar que, eu também mudei – talvez você nem me reconheça mais. Como dizem por aí “Tô podendo”. Faz dois anos que não nos vemos mais, perdemos contatos. Não nos vemos mais. Depois de você namorei mais um cara, o nome dele era Gustavo, mas eu sempre o chamava de “Gus” ou de “cuscuis” na intimidade. Ele foi bom comigo.. Ô se foi! Mas foi só isso. Foi bom até demais. Não me sacaneava. Sempre chegava no horário. Sabia como me aquecer. Beija-me conforme o ritmo. Encaixava-me do modo como me dava mais prazer. Sabia como me zelar. Compreendia-me. Decifrava-me como ninguém. Era bom demais. O cara era perfeito. Era o genro que toda mãe pede á Deus. E até hoje, sinto um pouco de remorço pelo sofrimento que causei ao coitado. Fico pensando se não devo te procurar, pelo menos pra dar um sinal de vida, ou um abraço e dizer “senti saudade..” qualquer coisa assim. Por que não te procurar? Hein? O que me impede? Vou perder alguma coisa? Por que não ir atrás de você? Atrás do tempo perdido? Mesmo querendo esconder, no fundo.. No fundo, quando ouço alguma musica de despedida, logo me vem na mente, você e o nosso adeus não dado. [..] Depois de te procurar em todas as redes sociais existentes, de tentar achar alguma pista sua pelos nossos antigos amigos.. Encontrei-te! “Avenida Brasil travessa com a Marechal, apartamento 15, porta marrom” Anotei em rascunhos no meu celular e fui te caçar. Não foi tão difícil como eu pensava. Posso dizer uma coisa? Só entre nós? Eu espero que você esteja todo desengonçado só pra ter algum tema pra conversar contigo. Achei-te danado! – pensei comigo. Bato duas ou quatro vezes? É melhor duas, quatro é sinal de desespero. Tapar o olho mágico, sim ou não? E se ele me reconhecer? Não.. Ele não vai. Tá! Vou tapar. Vai.. um..dois.. Três.. Bate! Meu cabelo, ai ai meu cabelo. Tá bom? Será que tá? Ah, vai assim mesmo! “Toc toc” A porta tá se abrindo.. Tá se abrindo! Meu Deus.. Abriu! “Olá” – Fiz merda, fiz merd.. “Oi..” “Posso te oferecer algo?” – tanta coisa, meu bem.. “Não se lembra mais de mim?..” “E deveria?..” – toma.. Eu merecia isso. “Eu não sei, me diz você..” “Entre, não é elegante deixar uma moça no corredor, e, por favor, não repare na bagunça..” – entrei e sabe? Nada mal, tudo bem definido.. Do jeito que eu gostaria que fosse meu cantinho. “Belo apartamento..” “Também acho..” “Enfim, não sou familiar para você?.. Nenhum pouco?” “Um pouco é.. talvez médio.. um tico a mais.” “Não é pra menos, faz dois anos que não nos vemos..” “Não me ajudou muito, se você me conhece, deveria de saber que sou péssimo com datas..” – eu podia ter dormido sem essa.. Eu podia. “Ah sim.. desculpe-me, não deveria de ter vindo. Enfim, foi bom revê-lo novamen..” “Ei, eu não fui grosso. Aliás, tu nem se apresentou direito, vá.. diz-me, qual é o teu nome?..” “As palavras saem quase sem querer rezam por nós dois, tome conta do que vai dizer.. lembra-se dessa musica? – sou horrível cantando meu Deus! “Não acredito.. Não pode ser! Porque não disse logo que era você? Hein?”– esse sorriso.. ai ai. “Suspense…” “Você mudou hein.. Venha, dê-me um abraço..” – então eu o abracei e senti aquele cheiro de Rexona recém-passado. “Seu abraço ainda continua confortável..” – o seu também.. do jeitinho que eu gosto. “Essa fala já é familiar para os meus ouvidos viu..” – olha eu ferrando com tudo mais uma vez “É né.. Você está linda” “Você também não está nada mal..” “Você ainda continua baixinha..” “E você continua com cheiro de Rexona..” “Quanto tempo não? Porque só agora veio me ver..?”– E agora? O que vou dizer? Nem eu sei por que vim, não quero começar isso de novo.. não agora. “Tava passando por aqui.. E soube que tu moravas aqui perto, e vim ver-te, nada planejado e tal..” “Nada planejado?..”“ Nadica”..” “Fico feliz com sua visita” “Fica..?” “Fico.. e muito” “Vou-me embora.. tá tarde!” “São duas horas da tarde..” “Viu.. como eu disse, tá tarde” – falei apontando para o sol, trocadilho idiota. “Você e suas piadinhas..” “É.. eu e elas..” “Fica..” “Fica o que?” – Tenho essa mania de dar-me de desentendida sempre nas horas erradas. “Fica aqui comigo mais um pouco, você acabou de chegar hora essas..” “Tenho que pagar minhas contas..” “Você pode pagar amanha.. depois de amanha..” “Eu sei.. Mas preciso pagar hoje..” “Tá então, já que você quer tanto ir.. pode ir, sem problemas.” – Insiste mais um pouco.. Estou quase desistindo de ir, e ficar mais um pouco.. “Ok! Se cuide.. “Até qualquer dia.”. “Até..” – Levou-me até porta, deu um aceno, bateu a porta e fui-me embora. Esse era o seu grande erro. Deixava-me ir. Sempre me deixou ir. Lembra-se das ultimas coisas que lhe disse há dois anos atrás? De que, eu queria ver você lutando por mim mesmo sabendo que, teria-me no final? Parece que não.. Mas ao contrário de você, eu não sou assim, luto até o fim. Como você disse.. sem problemas! Amanhã vou até o seu apartamento, e tentamos novamente.